Há histórias que provam que a corrida é muito mais do que ritmo ou distância: é consistência, descoberta e, acima de tudo, paixão. A de Carlos Natividade Silva é uma dessas histórias. Aos 65 anos, soma décadas de dedicação à corrida, iniciada quase por acaso após um desafio familiar, e que rapidamente se transformou num pilar da sua vida.
Sem acesso às facilidades de hoje, construiu o seu caminho com base na curiosidade, na leitura e na experiência própria. Das primeiras provas de estrada às exigentes maratonas e, mais tarde, aos duros ultra trails, percorreu um trajeto marcado por evolução, superação e momentos inesquecíveis, com destaque para desafios icónicos como o UTMB.
Nesta entrevista, partilha memórias, aprendizagens e a forma como a corrida continua a fazer parte do seu equilíbrio físico e mental. Uma conversa genuína sobre o prazer de correr, os desafios do tempo e a importância de nunca deixar de avançar.
Quem és e qual a tua ligação à corrida?
Carlos Natividade Silva, 65 anos, residente na Senhora da Hora, Matosinhos.
Militar na situação de reforma.
A minha ligação à corrida, deve-se a um desafio feito pelo meu cunhado Artur (também militar na reforma) que em 1990, num treino que ele foi fazer na Quinta da Conceição (Matosinhos) e que me convidou a acompanhá-lo, após 20 minutos de corrida lenta lhe ter dito que já não dava mais, desatou a ralhar-me que não podia ser assim. Tinha 30 anos e já não corria 20 minutos. Não podia ser, tinha que começar a treinar, a correr devagar e arranjar objectivos para motivar à prática do exercício físico.
E assim foi, desde essa data, nunca mais parei e sempre me senti realizado com o que ganhei e fiz na prática da corrida.
Como começaste a correr? Houve algum momento que te marcou?
Depois de começar a correr, fui à procura de informação sobre a prática da corrida. Lembro que não havia internet, plataformas de treino, treinadores disponíveis, os que havia treinavam equipas e atletas de nível competitivo.
Fui buscar planos de treino às revistas, Spiridon e Atletismo. Comprei livros sobre a temática da corrida e do treino e fui elaborando os meus planos de treino.
Tenho vários momentos que marcaram a prática da corrida. A forma “acidental” como me inscrevi na 1ª prova. A 1ª Meia-Maratona. As Maratonas (incluindo a 1ª em Montanha). A primeira Ultra, porque nunca tinha corrida de noite em Montanha.
E depois, os Ultra Trail, nomeadamente a 1ª da Freita (70km) e depois todas as outras de 100km ou 100milhas.

Qual foi a tua primeira corrida ou prova e como te sentiste?
A 1ª prova foi a Sacha. No Porto, começou na Rua Santa Catarina e terminou nos Armazéns Marques Soares, nos Clérigos. Correu muito bem, pois já tinha alguns meses de prática e sempre sem querer dar “um passo maior que a perna”.
O que te motiva a continuar a correr?
A motivação a partir de certa altura, passou a ser necessidade e desde aí (mesmo tendo feito um interregno devido à abertura do Agrupamento de Escutas) nunca mais parei porque precisava de fazer qualquer coisa, de preferência a corrida, era como se me faltasse o ar, não ficava bem comigo quando não o fazia.
Como é a tua rotina de treinos ou corridas?
Actualmente, comecei a intercalar a corrida com a bicicleta.
Já não tenho uma rotina de treinos e todo o exercício que faço é para me sentir bem.
Tens alguma corrida ou momento inesquecível que queiras partilhar?
Tenho muitos, até porque já são muitos anos. As Maratonas, os Ultra Trail (UTMB, MIUT, UTAX -4, Ultra Pirineu. Riãno. Mas também, a ida a Santiago (5 amigos, 5 ultras, 5 dias), o Toca a Todos, vários Trail Camp, os diversos estágios (mesmo sozinho) que fiz na Estrela, no Marão, …
Mas a corrida inesquecível é o UTMB e tudo que vivi naqueles 170km e 38 horas à volta do Monte Branco. A resistência ao sono, as vezes que estava bem e rapidamente mal, as alucinações, as conversas que tive comigo mesmo … inesquecível.
Qual foi o maior desafio que já enfrentaste a correr?
O UTMB.

A determinada altura começaste a correr com a tua filha, qual a sensação?
Não é bem assim. A partir de certa altura, a Joana decidiu começar a correr e foi desafiando. Não podia dizer que não e, sempre que isso se proporcionar, lá vamos os dois dar a nossa voltinha. Tentamos sempre que o Paulo também venha. Umas vezes sim, outras não.
Sempre que corro na companhia dos meus filhos (Paulo incluído) é sempre fantástico. São momentos de muita troca de experiências, de contar histórias, de alegria.
Qual a tua distância favorita?
Os 100 km. São provas incríveis. Dá para passar por tudo. São muito exigentes sobre todos os aspectos. Físico, mental, cuidados com a alimentação e hidratação, cuidados com as condições atmosféricas, a altimetria, o controlo da distância, o parcelar da distância com os postos de abastecimento, o correr de dia e de noite (o amanhecer e o entardecer, é algo de espectacular)
O que mais gostas na corrida?
A simplicidade do movimento. O esforço e consequente recompensa por ficar bem comigo mesmo.
A liberdade que nos é concedida durante o tempo que praticamos, nomeadamente nos treinos longos.
O que mais detestas na corrida?
Nada. Na corrida gosto de tudo.
Caso ocorra alguma lesão durante a prática, não gosto (da lesão)
Que conselho darias a quem está a começar a correr?
Que o faça por gosto. Não salte etapas. Que respeite o seu corpo. Cada um é como é. Que desfrute da corrida.
Nenhum plano de treino, nenhuma forma de treinar, seja o que for, séries, longos, rampas, trilhos é igual para duas pessoas, ou três ou quatro.
Se tivesses de escolher uma frase ou lema que te acompanha na corrida, qual seria?
A corrida é simples, mas nada fácil.
– Aprender a comer, para correr.
– Em caso de lesão (por um período mais longo) nunca esquecer “que ninguém morreu por não correr” .


