Uma “Moutinhada” à volta do Porto

Autor: António Pinheiro  /   Abril 11, 2022  /   Publicado em Crónicas, Crónicas dos Leitores, noticias
Tags: ecotrail porto, trail porto

ecotrail portoPertinho de casa, com passagem pela minha terra natal, presença discreta nas redes sociais. 

“O que é isso do Ecotrail Porto?”

“Acho que é coisa do Moutinho e da Flor…”

42km num percurso aparentemente tranquilo (cuidado… é coisa do Moutinho e da Flor) levaram-me à inscrição, mas aos 13km, o meu corpo gritava: “vai para casa!” (pois… coisa do Moutinho e da Flor).

Desobedeci ao meu dorido corpo e não fui para casa, porque queria ver como era a prova até ao fim e, após quase 7 horas, lá cheguei a Gramido, queimado pelo sol, depois de ter sido enganado pelas aplicações meteorológicas que prometiam um dia de céu nublado.

Foi uma verdadeira “Moutinhada”, esta etapa portuense do circuito “Ecotrail”, uma ideia de Jean Charles Perrin baseada no conceito de organizar provas de trail em ambiente urbano.

Os mais puristas desdenharão deste género de corridas, pois ainda há quem ache que existem demasiadas provas e que o trail deve continuar a ser uma modalidade de culto, escondida nas serras, longe de tudo e praticada por “meia-dúzia” de eleitos.

De facto, nas partidas deste Ecotrail, éramos praticamente uma “meia-dúzia”, naquilo que parecia quase um free running. E qual é o mal? Nenhum.

78 finishers na prova de 20km, 36 na de 42km, 24 na de 80km.

Estava-se muito bem nesse ambiente informal, sem grandes aparatos, sem grandes nomes… talvez os mais sonantes que por ali andavam fossem mesmo os de José Moutinho, Flor Madureira, Luís Pereira… e do Joca!

Olhando para as informações que iam sendo partilhadas nas redes sociais, o perfil da prova, os locais por onde ela passava, os mais incautos eram facilmente enganados e eu caí como um patinho. Depois de um percurso bem corrível de Covelo até Crestuma, entramos numa terrível sequência de sobe, desce, agarra, trepa, escorrega, desliza, salta, tropeça, vira, desvia. Tudo isto desde o Centro Náutico de Crestuma a Avintes. Depois, o percurso ficou mais “urbano”.

Assim mesmo, entre aspas, porque quando menos esperávamos, lá andávamos nós novamente pelo meio da terra, lama, pedras, erva… Este Ecotrail teve de tudo e, para quem corre por prazer, está óptimo. Foi tudo, menos monótono.

Pelo meio, conheci o Pertti (finlandês), a Erika e o Bernd (um casal de alemães). Estes últimos, fazem uma maratona por mês, em diferentes cidades do mundo e para a semana vão correr 310km algures por aí. Cheguei à meta entre ambos. Fizeram questão de me agradecer a companhia e trocamos votos de boas corridas para o futuro. 

Para além de treinar as pernas, treinei o Inglês e ainda fiz de guia turístico.

Este conceito de prova tem tudo para vingar e arrastar mais gente, desde que sejam melhorados alguns aspectos, como a comunicação (mais assertiva, clara e coerente), a calendarização (eu sei que fica difícil agendar provas de trail com um calendário tão cheio) e determinados pontos do percurso, onde não foi agradável correr. E não, não estou a falar da dureza que é sempre bem vinda. Falo de locais com lixo (demasiado lixo), com cheiro a esgoto e ter que atravessar uma das mais movimentadas zonas turísticas do Porto, repleta de gente a passear. Percebo o objetivo, mas não foi divertido.

De qualquer modo, no fim do dia o saldo foi positivo: o conceito da prova é, acima de tudo, divertido e correr à volta de casa é sempre bom! Ficam mais 40km nas pernas para mais tarde recordar.

P.S. – A conversa do “há demasiadas provas”, já chateia. Assim como o desvalorizar e desdenhar de provas que não têm figuras “de cartaz” entre os inscritos. A qualidade de uma prova vê-se pela Organização e pelas características do trajecto, não por quem decide, ou não, inscrever-se. A ATRP tem os seus circuitos competitivos e mesmo esses são “sacos de pancada”.

Qualquer evento que vise promover a actividade física, o desporto, o contacto com a Natureza, será sempre bem-vindo. Haverá organizações melhores, outras piores, cabe a cada um escolher as corridas que quer e pode fazer.

Correr é e será sempre sinónimo de liberdade.

Foto: Samuel Fritz

Sobre António Pinheiro

Profissional de marketing, músico e corredor por prazer. Corre na estrada, no monte e de um lado para o outro na vida, atrás e à frente dos filhos.
Urban Trail Lisboa

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