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Carlos Sá: o homem que continua a abrir caminhos para o trail português

Vencedor da Badwater, pioneiro das ultradistâncias em Portugal, organizador de provas de referência e um dos nomes que mais contribuíram para a afirmação do trail nacional, Carlos Sá continua a desafiar-se dentro e fora das competições. Numa conversa com o Correr por Prazer, fala da sua paixão pelo desporto, das aprendizagens ao longo de uma carreira ímpar, dos desafios de organizar eventos e do futuro de uma modalidade que ajudou a fazer crescer em Portugal.

Quando olhas para a tua carreira, qual foi o momento que mais te transformou como pessoa e não apenas como atleta?

Foi, sem dúvida, a paixão pelo desporto em geral, e pelo atletismo em particular, do meu pai. Como em criança eu andava sempre a correr, ele decidiu colocar-me num clube de atletismo, onde me destaquei desde o início. Não fosse essa experiência em criança, não tenho dúvidas de que me deu bases muito importantes para toda a vida, até mesmo a nível fisiológico.

A vitória na Badwater marcou a história do ultramaratonismo português. O que aprendeste sobre ti próprio nessa prova que ainda hoje aplicas na tua vida?

Penso que a vitória na Badwater foi surpreendente a vários níveis, daí ter sido muito falada em todo o mundo. À semelhança do UTMB, onde demorou quase 20 anos até um norte-americano vencer nos Alpes, também na Badwater nunca nenhum europeu tinha ganho. Ainda por cima, tratava-se de alguém que era um trail runner puro, e logo na sua primeira participação. Até então, eu nunca tinha corrido uma maratona em asfalto e ali tive de correr cinco seguidas.

Aprendi que, por muitos planos que façamos (e temos sempre de trabalhar de forma planeada), a vida reserva-nos enormes surpresas e oportunidades. Temos de as saber gerir e aproveitar da melhor forma, replaneando constantemente, todos os dias e a toda a hora.

Houve algum momento em que pensaste seriamente em desistir de um objetivo importante? O que te fez continuar?

Não. Fui e sou sempre muito determinado nas minhas convicções. Muitas vezes perco, e muito, nas apostas que faço, mas acho que são esses erros que me fazem crescer e avançar.

Assististe à enorme evolução do trail running em Portugal. O que sentes que mudou para melhor e o que ainda gostarias de ver evoluir?

Vinte anos depois da Freita e quinze anos depois da Serra d’Arga, Portugal está, desde a última década, na linha da frente do trail mundial, fruto de atletas raçudos e organizadores teimosos que, mesmo sem apoios ou com muito poucos apoios, decidem trabalhar para que o trail português esteja onde está.

Estou eternamente grato a quem me apoiou e continua a apoiar, quer enquanto atleta, quer como organizador, sendo a maioria desses apoios uma forma de reconhecimento do esforço e da paixão que coloco naquilo a que me proponho, sem qualquer lógica comercial.

E esse é o ponto crítico para o futuro dos eventos: ou conseguimos dar retorno comercial às marcas, ou os apoios acabam e os eventos não sobrevivem.

Acredito que praticamente todos os eventos de trail em Portugal estão a ser suportados pelas inscrições e pelo apoio dos municípios, e isso pode não ser sustentável a muito curto prazo.

Depois de tantos anos a competir, o que te levou a passar também para o lado da organização de provas? O que aprendeste como atleta que procuras aplicar nos eventos que organizas?

Na verdade, sempre estive ligado às organizações. Já em criança ajudava o meu pai a organizar as provas na aldeia onde vivo.

Quando decidi mais tarde dedicar-me ao trail com mais regularidade, desafiei os Amigos da Montanha a lançarmos uma ultra em Barcelos. Foram 50 km, no ano de 2010, e imagine-se: era a terceira ultra trail em Portugal, depois da Freita e da Geira Romana. Hoje, 16 anos depois, perdemos a conta ao número de ultras existentes em Portugal.

Aliás, nesse mesmo ano de 2010 nascia a primeira prova de 100 milhas em Espanha, a Ehunmilak. Eu optei por fazer a minha estreia nas 100 milhas nesse ano e, como fiquei fora do sorteio do UTMB, fui para aquela que era então a prova com mais renome depois do UTMB, o Grand Raid des Pyrénées. Tive a sorte de vencer também na estreia, e isso foi muito importante para me lançar nas grandes ultras do mundo.

Enquanto organizador, o lançamento do Grande Trail Serra d’Arga, em 2011, foi um marco importante. Depois, em 2014, com as provas no Gerês, confirmou-se que era mesmo isto que queria fazer para o resto da minha vida. Faço-o com paixão e tento colocar o máximo de profissionalismo em tudo o que faço.

Como geres hoje a relação entre desempenho, longevidade e prazer pela corrida?

Nunca houve tantas condições ao dispor dos atletas. Recordo que, quando fui convidado para participar na primeira Ultra Pirineu da Salomon, em 2009, nem tinha onde comprar géis, quanto mais planos alimentares ou acompanhamento médico. Também havia muito pouca oferta de sapatilhas. A Salomon enviou-me umas Speedcross dias antes do evento. Conclusão: fiquei com os pés cheios de bolhas e tive de caminhar bastante nos últimos quilómetros. Mesmo assim, terminei em 8.º lugar.

Que erro vês os corredores amadores cometerem com mais frequência quando começam a aventurar-se nas ultradistâncias?

Terem pressa. A ultramaratona requer respeito, paciência e muito trabalho a todos os níveis.

Entre todas as montanhas, desertos e trilhos por onde passaste, qual foi o lugar que mais te marcou e porquê?

Todos são incríveis, mas diria que a Amazónia, a Gronelândia e o Saara constituem o meu top 3 de eleição. É curioso que, quanto mais locais fantásticos visitava e continuo a visitar, mais valor dou ao nosso Portugal. Temos um país verdadeiramente único.

Carlos Sá

A Extreme Road Marathon 90K surgiu com um conceito diferenciador e este ano esgotou as inscrições muito rapidamente. Na tua opinião, o que tornou esta prova tão apelativa para os corredores e o que procuraste oferecer de diferente em relação ao que já existia no panorama nacional?

Desde que fiz a Badwater, em 2013, gostava de um dia criar um evento semelhante, mas adaptado à nossa realidade. Comecei com a Gerês Marathon, que já considerava um grande risco. Tinha receio de não ter participantes suficientes para justificar a realização do evento, mas correu bem.

A ultra esteve sempre na minha cabeça, mas fui adiando o lançamento. Em plena pandemia de Covid, decidi arriscar. Foram 90 quilómetros a ligar as duas aldeias que dão nome ao Parque Nacional, da Peneda ao Gerês, daí a distância de 90K.

Muita gente pedia-me para arredondar para 100 km, mas, na minha perspetiva, não fazia sentido acrescentar quilómetros que não acrescentassem valor ao evento.

Foram apenas 30 participantes na primeira edição. Eu sabia que era um caminho longo e difícil até conquistar a confiança dos futuros participantes e, por isso, tinha receio de lançar o evento antes.

Hoje, claramente, aconteceu aquilo que imaginava: é um evento e um conceito fora de série, algo que gostava de replicar noutros locais icónicos de Portugal. Vamos ver se essas oportunidades surgem.

O trail running está a crescer rapidamente em Portugal. Como é que se consegue conciliar esse crescimento com a preservação dos trilhos e dos espaços naturais onde corremos?

Acho que é precisamente todo este movimento dos eventos de trail e de outras atividades na natureza que faz com que se olhe mais para esses espaços. Caso contrário, muitos deles estariam em pleno abandono.

Se daqui a 20 anos alguém contar a história do Carlos Sá, o que gostarias mais que fosse lembrado?

Alguém que lutou por aquilo em que acreditou e em quem se podia confiar.

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Vitor Dias
Vitor Dias
Autor e administrador deste site. Corredor desde 2007, completou 77 maratonas em 18 países. Cronista em Jornal Público e autor da rubrica Correr Por Prazer em Porto Canal. Site Oficial: www.vitordias.pt

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