João “Joca” Carvalho, natural de Ponte de Lima e residente em Vila Nova de Famalicão, é uma das vozes mais emblemáticas do trail running em Portugal. Professor de Português e apaixonado pelo desporto desde jovem, transformou a energia, a emoção e a capacidade de comunicação numa marca pessoal que hoje dá vida a algumas das maiores provas nacionais e internacionais.
Quem és tu?
Sou o João Carvalho de cartão de cidadão há 50 anos, ou o Joca, como toda a gente me conhece desde pequeno! Natural de Ponte de Lima, aquela que será sempre a “minha terra”, e a viver em V. N. de Famalicão, cidade que tão bem me acolheu há perto de duas décadas por motivos profissionais. Sou professor de Português há cerca de 25 anos, com foco no ensino secundário, e essa continua a ser a minha principal atividade diariamente…
Como começou o teu percurso como speaker de provas de corrida?
A minha vida esteve, desde muito novo, ligada ao desporto pois comecei a praticar ciclismo de estrada aos 9 anos, com a minha terceira ou quarta bicicleta, mas estive também muito ligado aos palcos, à música, à montagem de sistemas de som e aos microfones desde muito novo! A apresentação de eventos culturais começou também ainda na minha adolescência. A passagem para a apresentação de eventos de corrida foi uma transição um pouco inesperada…
Lembras-te da primeira prova onde pegaste no microfone? Como foi?
A primeira prova que apresentei foi relacionada com o desporto que pratiquei durante quase quinze anos, já depois de terminar os estudos – o Downhill. Aconteceu naturalmente, pois era o responsável pela secção de Downhill dos Amigos da Montanha, em Barcelos e, numa das provas que organizávamos, o Downtown do Galo, fui o diretor de prova e Speaker do evento. Isso chamou a atenção da direção dos Amigos da Montanha que logo ali me convidaram a apresentar os Jogos do Rio, atividade multidesportos que acontece durante o Verão em Barcelinhos. Logo depois dessa competição, a direção dos AM convidou-me para apresentar o Trail dos Amigos da Montanha, penso que em 2010… O diretor de prova desse trail era o atleta/organizador Carlos Sá. Esse foi o “rastilho” para o que se seguiu. O Carlos Sá convidou-me para ser o Speaker do Grande Trail da Serra D’Arga, penso que na sua 2ª edição. O resto é fácil de perceber e a “bola de neve” que isso provocou…
Que competências são essenciais para ser um bom speaker numa prova?
Um Speaker acaba por ser a voz e rosto de uma prova. É quem os atletas veem na partida e na chegada. Para um trabalho bem feito, o Speaker tem de se “sentir” totalmente integrado na prova e na modalidade que está a apresentar. É importante também poder comunicar em várias línguas pois, cada vez mais, estamos perante eventos internacionais. Para isso, além de um Speaker ter de possuir alguma capacidade de comunicação acima da média, existem outros pontos chave que vão separando a qualidade emprestada aos eventos. Falar com energia e boa dicção, saber adaptar o tom ao momento, conseguir prender a atenção do público e dos atletas, transmitir confiança e conhecimento, ter capacidade de improviso e muitas outras que poderiam aqui ser enumeradas, mas que todas rodam em volta da paixão pelo desporto e da responsabilidade, pois o entusiasmo genuíno é percebido pelo público.
Como preparas uma prova antes do evento?
A preparação de qualquer evento tem sempre de passar pela leitura atenta dos regulamentos, pelo conhecimento do organizador, do local, dos parceiros e patrocinadores, dos atletas que estarão presentes (o que nem sempre é possível). É um trabalho moroso e que muitas vezes passa despercebido…
Recebes informação detalhada sobre atletas de elite e histórias dos participantes?
Não. Essa informação obedece a um trabalho pessoal e cuidadoso, que passa pela criação de apontamentos importantes e pelo acompanhamento das redes sociais, quer do evento, quer dos atletas…
Existe muito improviso durante uma transmissão ao vivo?
É fundamental ter essa capacidade. O improviso e a atenção ao que nos rodeia é que dita se estamos ali a fazer um bom trabalho ou não. A “bagagem” cultural, desportiva e linguística também fazem a diferença.
Qual foi o momento mais emocionante que viveste numa meta?
Momentos emocionantes são já tantos que se torna difícil escolher um… mas as metas dos Campeonatos do Mundo de Trail em Portugal, quer em 2016 em Arcos de Valdevez, quer em 2019 em Miranda do Corvo, deixaram marcas! Além disso, a emoção está presente também noutros momento que não só a meta… Que o diga quem esteve na cerimónia protocolar de domingo do Demo Trail deste ano!

Sentes que um speaker consegue influenciar a motivação dos corredores?
São eles próprios que me confessam isso. A emoção transmitida na partida ou na chegada, ou ainda quando nos começam a ouvir a quilómetros da meta faz com que a envolvência e a motivação cresçam!
Como viste evoluir as corridas em Portugal nos últimos anos?
O Trailrunning, que acompanho praticamente desde os primórdios em Portugal, teve um crescimento notório. Arrisco-me a dizer que a nível mundial será o desporto que viu o número de praticantes manter-se num crescimento constante até ao momento. E o facto de termos milhares de praticantes amadores, que foram sendo chamados para a atividade física regular devem deixar-nos bastante satisfeitos com o trabalho feito por diversas entidades e organizadores. Falta mais apoio e reconhecimento por quem tutela o desporto para que outras modalidades possam usufruir dos apoios que, muitas vezes, são canalizados para o futebol. Isso influencia também o aspeto competitivo, pois apesar dos enormes resultados alcançados por diversos atletas portugueses, sinto que o apoio e reconhecimento está ainda aquém do expectável.
Já cometeste algum erro memorável ao microfone?
Estar de microfone “aberto” tantas horas é propício a que se cometam gafes. Que eu me recorde, nenhuma foi grave ou dolosa, mas trocar o nome a um atleta ou equipa no meio de tantos milhares de nomes, acontece. Errar é humano e, caso seja algo pontual, basta lamentar humildemente o sucedido e continuar o trabalho. Ficarmos a pensar na falha apenas nos leva a mais falhas!
Qual foi a situação mais caricata que já viveste numa prova?
Desde um casal que levou a manta do sofá pois a manta térmica era material obrigatório até ao pedido de casamento cancelado, depois de termos champanhe, chocolates e flores à espera na meta, já aconteceu um pouco de tudo!
Qual foi a chegada à meta mais épica que narraste?
Talvez a de um atleta espanhol, na prova dos Abutres. É um atleta amputado, que utiliza uma prótese e que conseguiu concluir a prova Ultra dentro do tempo regulamentar, numa edição bastante dura! O ambiente da meta e a receção que lhe foi feita marcaram todos quantos lá estavam!
Quais os teus “hobbies”?
Sou um apaixonado pelas duas rodas, quer motas, quer bicicletas… O pouco tempo que me resta é passado a andar ou a fazer a mecânica delas. Ambas as situações me dão imenso prazer…
Se tivesses de escolher uma frase ou lema que te acompanha na corrida, qual seria?
Não só na corrida, como na vida: quanto mais dura é a vida, mais fortes temos de ser…
Penso que a felicidade e bem-estar só se conseguem quando conseguimos atingir pequenas metas, acompanhados da família e de amigos verdadeiros…

