Poucos atletas portugueses conseguem combinar rendimento desportivo de elite, espírito de aventura e uma ligação tão profunda à montanha como Ester Alves. Com um percurso que começou no remo de alta competição e passou pelo ciclismo antes de chegar ao trail running, Ester construiu uma carreira marcada pela resistência, pela superação e pela procura constante dos próprios limites.
Nesta entrevista ao Correr Por Prazer, Ester Alves fala sobre o percurso que a levou ao ultra trail mundial, os momentos mais difíceis que viveu em competição, a relação com a montanha e a motivação que continua a levá-la à procura de novos desafios.
A Ester Alves é hoje uma referência no ultra trail e nas provas de alta montanha. Como começou este caminho e em que momento percebeste que este seria o teu mundo?
Sempre pratiquei desporto. Comecei no remo, modalidade em que representei Portugal em Taças do Mundo e Campeonatos do Mundo. Fiz parte do projeto olímpico para Pequim 2008 e foi após esse ciclo olímpico que iniciei a minha jornada no ciclismo. Participei em algumas provas nacionais e, graças à motivação e disciplina que trazia do remo, rapidamente comecei a alcançar lugares de pódio. Quando conquistei o título de campeã nacional, fui convidada para integrar uma equipa basca e competir em Espanha. Permaneci lá durante quatro anos, até ser aceite no doutoramento da faculdade onde mais ambicionava estudar: a FMUP.
Foi então, de regresso a Portugal, que o meu grande amigo Pedro Amorim me apresentou o trail e aquele que considero um dos maiores professores da modalidade: Carlos Sá. Aí começou verdadeiramente a minha jornada no trail running. Em 2015 alcancei o 8.º lugar no Circuito Mundial de Trail e também o 8.º lugar nos 170 km do UTMB, resultado que me levou a ser chamada pela Salomon. Fui várias vezes campeã nacional de trail e de skyrunning.
Tens um percurso muito ligado a provas longas, técnicas e em autonomia. O que te atrai neste tipo de desafio mais extremo?
Mais tarde, para além das provas longas, decidi também participar em provas de etapas extremas. O meu principal objetivo era testar limites e perceber mais sobre a fisiologia humana – uma área que, enquanto académica, sempre me fascinou. Ainda hoje continuo ligada a projetos com o ICBAS e a FMUP, no estudo da fisiologia humana aplicada ao exercício físico e à corrida.
Há alguma prova ou expedição que consideres um ponto de viragem na tua carreira?
O grande ponto de viragem no trail foi, sem dúvida, o 8.º lugar no UTMB, numa altura em que já competiam alguns dos nomes mais fortes da modalidade, como a minha grande referência, Nuria Picas. Nesse ano completei os 170 km em 28h48m, estabelecendo a melhor marca de sempre de uma atleta portuguesa no UTMB – algo que ainda hoje me surpreende um pouco.
Já competiste e exploraste ambientes muito diferentes – Europa, montanha, altitude e condições adversas. Qual foi o cenário mais duro que enfrentaste até hoje?
Os dois cenários mais exigentes em que tive plena consciência de que a situação poderia correr mal foram:
O primeiro foi na Marathon des Sables, num ano em que corremos com temperaturas de 54ºC. Durante a etapa longa perdi os sentidos durante cerca de 20 minutos, segundo me disseram. Caí na areia e fui acordada por atletas e membros da organização. Lembro-me de despertar com o som de um helicóptero sobre mim. Estava extremamente desidratada e perguntaram-me se queria continuar. Decidi seguir em prova, mesmo percebendo que algo grave poderia acontecer. Nesse ano morreram duas pessoas durante a competição.

O segundo momento aconteceu nos Himalaias, durante o Everest Trail Race. Numa das últimas etapas, em 2017, enfrentámos temperaturas de -13ºC. Passei a noite acordada a mexer constantemente o corpo para tentar aquecer. A perda de calor corporal e a fadiga provocaram vários episódios de confusão mental no dia seguinte. Lembro-me de tropeçar e cair inúmeras vezes. Ainda assim, com capacidade de análise e espírito combativo, consegui terminar no pódio.
O que é mais exigente para ti numa prova deste tipo: o físico, o mental ou a gestão da solidão durante tantas horas?
Sem dúvida, o mais exigente é a componente física. Temos de estar muito bem preparados para suportar todo o desconforto extremo associado a este tipo de provas. A quebra mental surge, muitas vezes, quando o organismo não está preparado para o esforço.
Quanto à solidão, nunca foi algo que me preocupasse. Muitos atletas, tal como eu, procuram precisamente as longas distâncias pela componente de superação pessoal e introspeção.
Em provas de alta montanha, as condições mudam constantemente. Qual foi o momento em que sentiste maior vulnerabilidade numa corrida?
Nunca me senti verdadeiramente vulnerável em prova, mesmo em situações de tempestade, porque sabemos sempre que existe uma organização e equipas de socorro preparadas para intervir.
No entanto, durante uma formação de montanha nos Picos da Europa, enquanto o grupo fazia uma progressão lenta com corda, houve uma derrocada de pedras e queda de blocos de neve. Com muita calma, e neve até aos joelhos, tivemos de ajudar a tranquilizar quem entrou em pânico.
Na montanha temos sempre de respeitar a progressão, agir com responsabilidade e manter a calma em qualquer circunstância. Aprendi muito nessa semana e cresci bastante enquanto atleta e pessoa. Considero que todos os atletas amadores de trail deveriam passar por experiências de progressão em montanha antes de se aventurarem em provas acima dos 3000 metros.
Há algum momento em que pensaste em desistir… mas continuaste? O que te fez avançar?
Houve muitos momentos. Também já desisti em provas – e isso é sinal de que participei em muitas competições. Felizmente, a taxa de sucesso foi sempre muito superior à das desistências.
“Abandonar nunca deve ser motivo de vergonha”
Recordo-me particularmente do Campeonato do Mundo de Ultra Skyrunning, disputado na Buff Epic Trail, nos Pirenéus. Nesse ano enfrentámos tempestades muito severas durante a prova. Houve momentos em que o frio era tão intenso que senti o corpo completamente gelado e pensei seriamente em desistir. Ainda assim, consegui terminar na 13.ª posição. Lembro-me de passar a semana seguinte com os dedos das mãos praticamente sem sensibilidade devido ao frio extremo.
Como é a preparação para provas tão longas e exigentes? Há mais foco na resistência física ou na gestão mental?
Acredito que deveria existir ainda mais foco na preparação física. Quando conseguimos correr com conforto e confiança, é muito menos provável surgir desânimo.
A fragilidade mental pode aparecer devido a fatores externos à prova, mas normalmente manifesta-se mais tarde quando a preparação física foi sólida.
O que mais te fascina na montanha quando passas tantas horas em esforço?
É a sensação de força e superação. A montanha obriga-nos a ultrapassar limites e isso torna-nos mais capazes e confiantes em tudo o que fazemos depois, na vida.

Ao longo da tua carreira, houve alguma experiência que te tenha mudado profundamente enquanto atleta e pessoa?
Penso que a experiência mais marcante foi precisamente quando, apesar do medo, tive de apoiar pessoas que estavam ainda mais assustadas do que eu. Estávamos acima dos 2800 metros, debaixo de uma tempestade, com neve até aos joelhos, e percebemos claramente que poderíamos ficar ali sem conseguir regressar.
Nas provas que realizamos em Portugal estamos, na verdade, quase sempre em segurança. O verdadeiro ambiente de alta montanha é algo muito diferente e exige enorme respeito.
Como vês a evolução do trail running em Portugal e no mundo, especialmente no segmento de ultra distância e alta montanha?
Com a integração da modalidade na FPA e com o aumento do conhecimento técnico e científico, vejo uma evolução muito positiva. Acredito que o trail running continuará a crescer durante muitos anos.
Ainda te motiva sair para mais uma prova, mais uma aventura, mais um desafio?
Sem dúvida. Em junho vou atravessar o deserto de Gobi e essa experiência poderá abrir caminho para um sonho ainda maior: a travessia da Antártida em corrida, prevista para novembro de 2026.
Já não sou uma atleta jovem, mas continuo profundamente motivada pela descoberta e pela aventura. Só preciso de manter a disciplina de treino que sempre me acompanhou.
Que conselho darias a alguém que sonha sair do trail “convencional” e entrar no mundo das ultras e da alta montanha?
Avaliar corretamente a fase de desenvolvimento em que se encontra, procurar profissionais experientes, planear bem o calendário competitivo e, acima de tudo, ter paciência com o processo de evolução.
Se tivesses de resumir a tua relação com a montanha e com a corrida numa frase, qual seria?
“Encontro na montanha, através da superação pessoal, a tranquilidade que procuro para o meu dia a dia.”

