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Matias Novo: a arte de captar a alma da corrida através da fotografia

Da Serra d’Arga às grandes provas internacionais, o fotógrafo de Viana do Castelo construiu um percurso marcado pela paixão pelo desporto, pela procura do momento perfeito e pela capacidade de transformar esforço, superação e emoção em imagens que contam histórias.

Há momentos numa corrida que duram apenas uma fração de segundo, mas que conseguem transmitir horas de esforço, quilómetros de sacrifício e uma enorme vontade de superar limites. Captá-los exige mais do que uma boa máquina fotográfica: exige sensibilidade, experiência, capacidade de antecipação e, acima de tudo, paixão pelo que se faz.

Matias Novo, fotógrafo profissional de Viana do Castelo, encontrou na fotografia desportiva uma forma de unir duas paixões: a fotografia e o desporto. Com um percurso iniciado quase por acaso, em 2012, tornou-se uma presença habitual em provas de trail running, ciclismo, atletismo de estrada e outras modalidades, levando o seu trabalho muito para além das fronteiras nacionais.

Nesta conversa com o Correr por Prazer, fala-nos das origens, dos desafios de fotografar em movimento, das provas que marcaram o seu percurso e dos sonhos que ainda quer concretizar.

De uma brincadeira ao primeiro grande desafio

A história de Matias Novo na fotografia começou durante a sua lua de mel. Foi nessa altura que conheceu um casal que utilizava uma máquina fotográfica com objetiva, cujos resultados o impressionaram pela diferença relativamente à sua máquina compacta.

Pouco tempo depois, surgiu a oportunidade de adquirir um equipamento fotográfico por 300 euros, depois de o irmão ter decidido trocar o conjunto que comprara inicialmente.

Em 2012, através de um contacto profissional do irmão, frequentou uma formação de 50 horas, onde conheceu pessoas que contribuíram para o seu desenvolvimento. Também Carlos Rocha, um amigo com mais experiência, teve um papel importante nessa fase inicial.

Matias queria aprender a dominar a máquina, em vez de depender do modo automático. A troca de conhecimentos, os vídeos no YouTube e muitas horas de prática fizeram parte desse processo.

Na altura, a esposa praticava voleibol, o que lhe proporcionou oportunidades para experimentar, errar e melhorar.

O passo decisivo chegaria em setembro de 2013, quando Miro Cerqueira o convidou para fotografar o Ultra Trail da Serra d’Arga.

«Na altura não fazia ideia do que era o trail, mas já conhecia bem a zona.»

Aceitou o desafio e, a partir daí, a fotografia desportiva passou a ocupar um lugar central na sua vida.

O trail abriu caminho a outras modalidades

A ligação ao desporto surgiu de forma natural. Desde pequeno que Matias praticava várias modalidades, pelo que encontrou na fotografia desportiva uma forma de continuar próximo desse universo.

O crescimento do trail running despertou-lhe um interesse particular pela combinação entre montanha, aldeias, paisagens e corrida. No entanto, percebeu desde cedo que, para evoluir como fotógrafo, teria de alargar os seus horizontes.

O ciclismo, o atletismo de estrada, o ténis, os remos e o BTT passaram também a fazer parte do seu trabalho.

Essa diversidade trouxe-lhe experiências diferentes e obrigou-o a desenvolver novas competências, sobretudo na preparação e na capacidade de adaptação a cada modalidade.

Fotografar é muito mais do que registar uma chegada

Quando descreve o seu estilo fotográfico, Matias destaca a criatividade, a procura de emoções e a capacidade de captar momentos que facilmente escapam ao olhar de quem acompanha uma prova.

A sua preocupação não se limita ao atleta. Sempre que possível, procura também documentar a região onde decorre a competição, valorizando as paisagens e os territórios que dão identidade a cada evento.

A sua filosofia resume-se numa ideia simples: qualidade acima de quantidade.

«A performance sempre, mas também o estado de alma do atleta em toda a sua plenitude.»

É essa dimensão humana que procura transmitir através das imagens. O esforço, a concentração, a alegria, o sofrimento e os pequenos gestos que acontecem longe das linhas de meta fazem parte da história de cada corrida.

Para Matias, há ainda um elemento essencial: a naturalidade.

Para mim, não há melhor foto que a naturalidade do atleta enquadrado na sua ação e paisagem.

Por isso, procura ser discreto e raramente interage com os atletas durante a prova. Prefere observar, antecipar e esperar pelo momento certo, sem interferir naquilo que está a acontecer.

Matias Novo

Entre trilhos, estradas e centenas de quilómetros

Fotografar uma prova de trail running é um desafio logístico considerável. Os acessos, os desníveis e as distâncias entre pontos de passagem obrigam a um planeamento cuidado, sobretudo quando o objetivo é acompanhar os atletas em vários locais ao longo do percurso.

No ciclismo, a mobilidade assume outra importância.

«Na estrada, uma mota e um motard resolvem uma série de dificuldades.»

Em ambas as modalidades, é necessário estudar antecipadamente os locais, calcular os tempos de deslocação e prever as passagens dos atletas. Ainda assim, nem tudo pode ser controlado.

A experiência ensinou Matias a preparar alternativas e a adaptar-se rapidamente às circunstâncias.

«Primeiro tinha que ter sempre um plano A, B ou C.»

O fotógrafo compara essa capacidade a uma espécie de camaleão: é preciso ajustar estratégias, tomar decisões rápidas e encontrar soluções quando os planos iniciais deixam de ser possíveis.

No trail, isso pode significar fotografar em dez ou mais locais diferentes durante uma única prova. No ciclismo, as deslocações podem atingir dimensões muito superiores.

Um dos exemplos mais marcantes foi o trabalho realizado na Grandiagonal, numa versão Non Stop, num percurso que chegou aos 1000 quilómetros.

Técnica, instinto e experiência

Não existe uma fórmula única para conseguir uma boa fotografia desportiva. A técnica é fundamental, mas Matias considera igualmente importantes o instinto, a experiência acumulada e a capacidade de adaptação.

A luz pode mudar, um atleta pode surgir inesperadamente ou um momento especial pode acontecer fora de qualquer previsão. É nesses instantes que a preparação e a sensibilidade do fotógrafo fazem a diferença.

«São simplesmente coincidências do destino de cada corrida.»

A fotografia acaba, assim, por ser também uma forma de contar aquilo que não estava previsto: um gesto de entreajuda, uma expressão de sofrimento, um sorriso inesperado ou a emoção de quem percebe que está prestes a alcançar um objetivo.

O equipamento também pesa

A vida de fotógrafo desportivo não se resume a escolher o enquadramento e carregar no obturador.

O equipamento pode representar uma carga considerável. Matias refere que a mochila pode pesar cerca de dez quilos, enquanto duas máquinas fotográficas e duas objetivas podem representar aproximadamente 2,5 quilos por conjunto.

A isso juntam-se as deslocações a pé, que frequentemente ultrapassam os dez quilómetros durante uma prova.

A corrida entra, por isso, na própria rotina de trabalho, embora admita que gostaria de correr mais.

«A idade não perdoa», comenta, com humor.

É mais um exemplo de como a fotografia de trail exige não apenas conhecimentos técnicos, mas também preparação física, resistência e capacidade para acompanhar o ritmo de uma competição.

Do Mundial de 2016 às aventuras internacionais

Ao longo dos anos, várias provas deixaram marcas no percurso de Matias Novo. Cada uma representa uma etapa e uma oportunidade de crescimento, mas há momentos que se destacam.

O Campeonato do Mundo de Trail de 2016 foi um deles. Com apenas um ano de utilização de material profissional, conseguiu realizar a cobertura fotográfica da competição e fotografar os novos campeões mundiais.

Essa experiência mostrou-lhe que podia ambicionar mais, desde que continuasse a trabalhar e a evoluir.

«Eu tinha capacidades, mas era preciso trabalhar ainda mais. E assim foi e assim tem sido, porque quero mais.»

O Ultra Sanabria marcou, por sua vez, o início das suas aventuras internacionais. Desde então, participou em mais de 20 provas fora de Portugal, com passagens pelo Brasil, Itália e Espanha, incluindo Ibiza e Gran Canaria.

Os Açores ocupam também um lugar especial no seu percurso. A ligação ao território levou-o a trabalhar com o Povoação Trail e, posteriormente, com o Azores Trail Running, desenvolvendo projetos que considera particularmente gratificantes.

«Os Açores têm algo com o qual me identifico completamente.»

Matias recorda ainda Vítor, a pessoa que lhe proporcionou a oportunidade de fotografar o Ultra Skyrunning Madeira, uma experiência que guarda com especial carinho.

Mais do que contabilizar provas, prefere valorizar as pessoas e organizações que confiaram no seu trabalho.

Sem atalhos nem favores, apenas trabalho dedicado.

Um sonho chamado Badwater 135

Apesar do percurso já construído, Matias continua a ter desafios que gostaria de abraçar.

A sua preferência por ultramaratonas com mais de 200 quilómetros, modalidade em que já conta com 12 provas no currículo, ajuda a explicar a escolha daquela que considera uma das experiências mais desejadas: a Badwater 135.

A dureza da competição, as paisagens e as exigências colocadas aos participantes são alguns dos fatores que alimentam esse sonho.

A pandemia de COVID-19 impediu que o concretizasse na altura inicialmente prevista, mas a possibilidade continua presente.

Matias Novo

«Quem sabe a oportunidade volta a tocar à minha campainha.»

É uma frase que traduz bem a atitude com que encara o futuro: continuar a procurar novos desafios, explorar outros territórios e descobrir histórias que merecem ser contadas.

Mais do que fotografias, histórias de superação

O percurso de Matias Novo mostra que a fotografia desportiva exige muito mais do que equipamento e conhecimento técnico. Requer preparação, resistência, criatividade e uma capacidade constante de adaptação.

Mas exige também sensibilidade para reconhecer que, por detrás de cada atleta, existe uma história.

Uma fotografia pode mostrar a velocidade, o esforço ou a paisagem. Pode também revelar a dúvida, a alegria, a exaustão ou a determinação que acompanham cada quilómetro.

É nesses momentos que Matias procura a diferença: não apenas registar quem corre, pedala ou supera os próprios limites, mas captar a essência daquilo que torna cada prova única.

Da Serra d’Arga às competições internacionais, o caminho continua. E, enquanto houver montanhas para subir, estradas para percorrer e histórias para descobrir, haverá sempre mais uma imagem à espera de ser captada.

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Vitor Dias
Vitor Dias
Autor e administrador deste site. Corredor desde 2007, completou 78 maratonas em 18 países. Foi cronista em Jornal Público e autor da rubrica Correr Por Prazer em Porto Canal. Site Oficial: www.vitordias.pt

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