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Como a guerra no Irão pode afetar as provas de corrida

Nunca pensei escrever sobre uma possível guerra no Irão num site de corrida, mas a verdade é que o mundo da corrida não vive assim tão separado do resto do mundo.

Sempre que acontece alguma coisa grande a nível internacional, mais cedo ou mais tarde isso acaba por se refletir em coisas que parecem não ter nada a ver. Mas as provas de estrada e de trail serão certamente afetadas.

À primeira vista parece um tema completamente distante. O que é que um conflito no Médio Oriente tem a ver com uma meia-maratona em Portugal ou com aquelas provas locais onde toda a gente se conhece? Mas se a situação piorar mesmo, é bem possível que nós, corredores amadores, também venhamos a sentir isso, tanto no nosso bolso como na forma como as provas vão ser organizadas.

A primeira coisa que normalmente muda é o preço do combustível. Sempre que há tensão naquela zona do mundo, o petróleo sobe quase automaticamente. Já aconteceu várias vezes e não é diferente agora. Pode não parecer importante para quem só quer ir correr ao domingo de manhã, mas organizar uma prova envolve muito mais logística do que aquilo que vemos. Há carrinhas, material, transporte de equipamentos, ambulâncias, montagens, desmontagens, tudo isso funciona à base de combustível. Se o combustível sobe, tudo fica mais caro para quem organiza.

E quando fica mais caro para quem organiza, mais cedo ou mais tarde isso chega a quem corre. Nos últimos anos já começámos a ver isso. Provas que antes eram baratas deixaram de ser assim tão acessíveis, algumas meias-maratonas estão cada vez mais caras e até as provas mais pequenas já não têm os preços de antigamente. Se houver um conflito prolongado no Irão, não me admirava nada que as inscrições subissem um pouco mais ou que começássemos a ver menos brindes incluídos. Não é por mal, é simplesmente porque organizar uma prova também ficou muito mais caro do que era há uns anos.

Outra coisa que pode mudar é aquela ideia de viajar para correr. Há muita gente que gosta de juntar as duas coisas: fazer uma meia-maratona noutra cidade, correr uma maratona lá fora, experimentar provas diferentes. Mas quando há instabilidade internacional, normalmente os voos sobem e os hotéis também. E chega a uma altura em que muita gente começa a pensar duas vezes antes de gastar tanto dinheiro só para ir correr fora.

Curiosamente, isso até pode ter um lado positivo. Se viajar ficar mais caro, é bem possível que muita gente comece a olhar mais para as provas em Portugal. Há imensas corridas locais com bom ambiente, menos confusão e muitas vezes mais espírito de corrida do que nas provas ditas grandes. Quem corre há mais tempo sabe bem disso. Às vezes as melhores corridas nem são as mais famosas, são aquelas mais simples, onde toda a gente está ali porque gosta mesmo de correr.

Também há outra coisa que costuma acontecer quando o mundo parece um pouco mais instável. As pessoas procuram coisas simples que ajudem a “limpar a cabeça”. E correr é provavelmente uma das melhores para isso. Não resolve problemas grandes, obviamente, mas ajuda a baixar o stress, a organizar a cabeça e a manter alguma rotina quando tudo o resto parece meio incerto.

No fundo, podem mudar os preços, podem mudar algumas provas e pode ficar mais caro viajar para correr. Mas há uma coisa que dificilmente muda: a vontade de sair de casa e ir correr. Porque afinal não precisamos de muito. Um par de sapatilhas, uma estrada (ou um trilho) e aquela sensação de que, durante uns quilómetros, a cabeça fica mais leve.

E talvez seja precisamente em alturas complicadas que isso ainda faça mais sentido.

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Vitor Dias
Vitor Dias
Autor e administrador deste site. Corredor desde 2007, completou 74 maratonas em 18 países. Cronista em Jornal Público e autor da rubrica Correr Por Prazer em Porto Canal. Site Oficial: www.vitordias.pt

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