Correr com (a) Diabetes

Autor: Filipa Vicente  /   Novembro 14, 2022  /   Publicado em Lesões e Doenças, noticias
Tags: dia mundial da diabetes, diabetes, glicemia, glucose, insulina, sérgio moreira

O dia 14 de Novembro é o dia mundial da Diabetes, uma das doenças crónicas não transmissíveis com maior prevalência e incidência. Embora seja chamada mais pelo primeiro nome, falamos especificamente da Diabetes Mellitus, uma condição metabólica que afeta os níveis de açúcar no sangue com que tem inúmeras consequências em todo o corpo humano quer a nível micro (visão, circulação periférica) quer a nível macro com o risco acrescido de doença cardiovascular inerente à doença.

O que é a Diabetes mellitus?

A diabetes mellitus é uma doença que se caracteriza por um nível de açúcar no sangue acima do valor recomendado que pode acontecer por falta de insulina, a hormona responsável pelo controlo desta variável, ou pela resistência à sua ação. Temos por isso indivíduos com diabetes insulino-dependentes (tipo I) ou insulino-resistentes (tipo II). A diabetes tipo I pode ter inúmeras causas que não são controladas mas a incidência da tipo II tem vindo a crescer sendo a obesidade, o sedentarismo e outros hábitos menos saudáveis fatores de risco relevantes. Neste artigo vamos referir-nos sobretudo à tipo I pelo risco que acarreta não ser apenas dependente dos hábitos do corredor.

Como afeta o corredor?

O seu corpo precisa de glucose para manter as funções dos órgãos vitais durante todo o dia, incluindo o exercício. Na ausência de insulina, ou na resistência à sua ação, vai ser mais difícil manter os níveis de glicemia controlados, motivo pelo qual pode arriscar uma hiperglicemia (níveis pós-refeição acima de 160mg/dl) que pode levar à morte por edema cerebral.
No entanto, se for insulino-dependente, tomar a sua refeição pré-treino e depois tomar a dose de insulina correspondente pode ter uma hipoglicemia intra-esforço (glicemia <50mg/dl), tão ou mais fatal do que a hiperglicemia.
Por isso o controlo de glicemia é ainda mais importante para o corredor diabético. É necessário começar o exercício com uma glicemia controlada e evitar doses elevadas de insulina perto do exercício. Além disso é muito importante ter à mão soluções rápidas para corrigir uma hipoglicemia (ex:. géis de glucose).

Atualmente este controlo tem vindo a ser facilitado pela utilização de aparelhos de monitorização contínua da glicemia (ex:. Libre) que até têm vindo a ser um recurso para não diabéticos.

E a alimentação do corredor com diabetes?

É ainda mais importante apostar em boas escolhas alimentares na refeição pós-treino e no timing das mesmas. É possível que não possa fazer a ingestão recomendada pelas “guidelines” de 3 a 4g de hidratos de carbono/kg de peso corporal e possa ser mais interessante fracionar a mesma dose em 2 refeições ou fazer uma carga de hidratos mais prolongada nos dias antes.

O mesmo acontece com o intra-esforço, para evitar a hiperglicemia pode não ser possível apostar nos 60-90g de hidratos de carbono/hora. Deve ser cuidadosamente monitorizada a glicemia intra-esforço para ser ajustada a dose.

Uma alimentação para um indivíduo diabético é essencialmente uma alimentação dita saudável, ou seja, baseada nos princípios de uma alimentação mediterrânica e com uma escolha assente em alimentos nutricionalmente densos. O que pode ser diferente?
• A importância de ter soluções rápidas para corrigir a hipoglicemia (incluindo açúcar)
• A forma como são fracionados os hidratos de carbono pré-esforço e até pode não ser possível usar os valores diários recomendados para endurance
• Antes do esforço é crucial ter uma glicemia adequada mas não excessivamente elevada e este controlo faz-se com um médico endocrinologista para que possa personalizar e encontrar o seu equilíbrio
• A necessidade de ajustar o intra-esforço, a monitorização contínua e a utilização da bomba de insulina tem vindo a apresentar bons resultados nos maratonistas e ultramaratonistas com diabetes tipo I

Certo é que o exercício tem inúmeros benefícios no controlo da glicemia pelo que em momento algum o deve abandonar. As células musculares são muito utilizadoras de glicose e por isso manter a massa muscular também vai contribuir para o bom controlo metabólico. Pode não conseguir manter as mesmas distâncias enquanto não está em equilíbrio mas procure não desistir e ser acompanhado por médico e nutricionista para ter um plano para si.

Bibliografia

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Riddell, M. C., Scott, S. N., Fournier, P. A., Colberg, S. R., Gallen, I. W., Moser, O., Stettler, C., Yardley, J. E., Zaharieva, D. P., Adolfsson, P., & Bracken, R. M. (2020). The competitive athlete with type 1 diabetes. Diabetologia, 63(8), 1475–1490.

Shugart, C., Jackson, J., & Fields, K. B. (2010). Diabetes in sports. Sports health, 2(1), 29–38.

Foto: Prorunners.pt

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Sobre Filipa Vicente

Nutricionista (CP1369N) e Professora universitária (IUEM). Escreve para o Correr Por Prazer desde a sua criação em 2008. É essencialmente uma facilitadora de escolhas na busca da melhor versão de nós mesmos. Site oficial: https://nutrium.io/p/filipavicente/blog
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