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A portuguesa que corre pelos desertos do mundo: a história de Carla André

Carla André, corredora portuguesa de ultradistâncias e apaixonada por desafios extremos, encontrou na corrida um estilo de vida. Aos 48 anos, soma experiências únicas em desertos de todo o mundo, numa jornada marcada pela superação e pela força mental.

Como começaste a correr? Houve algum momento que te marcou?

Comecei a correr após um acidente de viação em 2005, até essa data não fazia nenhum desporto, apenas ginásio e praticava equitação que fui obrigada a deixar após o acidente devido à fratura na coluna. Depois da recuperação comecei a caminhar e ia intervalando com a corrida, 1 minuto, 5 minutos, 10 minutos, comemorava cada vitória. Foi crescendo em mim esta necessidade de superação pessoal, cada km que aguentava sem parar era celebração. Fiz a primeira prova de 10km em 2010, e fui seguindo o caminho da primeira meia maratona, maratona, ultramaratona, 100km, 100 milhas , até que em 2015 conheci o deserto e a prova extrema da Marathon des Sables (250km – Marrocos – deserto Sahara), onde descobri que o corpo faz o que a mente sonha e esse é o momento que marca esta viagem que faço a descobrir desertos, colecionando km ‘s nas pernas

Qual foi a tua primeira corrida ou prova e como te sentiste?

Primeira prova oficial de 10km – corrida do Tejo, senti-me muito cansada no final, foi muito difícil, depois os 10km foram tornando-se fáceis, tudo tem o seu caminho.

O que te motiva a continuar a correr?

A corrida tornou-se no ar que respiro, sendo ela tão mais do que km’s, não há como deixar. O que que motiva é a superação pessoal, em cada corrida um desafio, uma história.

Como é a tua rotina de treinos ou corridas?

Atendendo á exigência da minha profissão a gestão dos treinos é o meu maior desafio. Durante a semana não consigo fazer treinos longos, mas tento fazer corrida e treino funcional, por exemplo 1h a correr e 30 minutos de treino funcional. Sem tempo para ginásios o treino funcional é feito em casa através de um programa de aulas que subscrevi na internet. No fim de semana aproveito para os treinos longos ou provas que são treinos também para os principais desafios. Não tenho treinador, sou eu que desenho os meus treinos em função da minha disponibilidade e consoante a prova. O meu lema é sempre ouvir o corpo e nunca descurar o treino funcional que é tão ou mais importante do que a corrida, permite evitar lesões e potenciar a força para a exigência da longa distância. Corro sempre sozinha por motivos de preferência pessoal mas também porque são ótimos treinos de força mental, gosto de treinos longos , já fiz vários treinos de 100km em autossuficiência e sem qualquer suporte, tenho um fascínio pelo poder destas opções no fortalecimento da mente e preparação para desafios exigentes e extremos.

Tens alguma corrida ou momento inesquecível que queiras partilhar?

Já corri em muitos dos desertos mais belos do mundo tal como no Chile (Atacama), Sahara – Argélia /Chade… etc Arábia Saudita, Kalahari, Omã, Iémen , Mauritânia, Namíbia, Uzbequistão …. entre muitos outros, mas se há deserto e momento da corrida que não consigo esquecer é o meu primeiro deserto que foi em Marrocos na Marathon des Sables, foi a conquista de algo desconhecido, o momento de viragem para um caminho de vida, por isso, é mesmo o mais especial!

Qual foi o maior desafio que já enfrentaste a correr?

O meu maior desafio foi a mais longa distância em non-stop, 400km no deserto de Gobi, Gobi400 que realizei em Outubro de 2025. 400km em orientação por GPS, autonomia alimentar, deserto, calor durante o dia e temperaturas negativas durante a noite. Subida até aos 3300 metros de altitude

Carla André

A determinada altura apaixonaste-te pelas corridas no deserto. Porquê?

Foi na Marathon des Sables, em 2005. Descobri a beleza do deserto ao mesmo tempo que descobri que a mente consegue levar-nos tão longe. Que conseguimos ser felizes com tão pouco, deslocados de casa, sem rede de telemóvel, carregando tudo o que necessitamos para sobreviver durante uma semana. Aprendi que a leveza da vida também depende da forma como encaramos os desafios. E descobri a beleza do deserto que nos surpreende com autênticas esculturas no meio de uma imensidão, tão mais do que os grãos de areia aos quais associamos o deserto. É magia, é um silêncio que nos permite ouvir a nossa essência. É um sol e lua diferentes, o mais belo céu que conheço vi quando corria de noite pelo deserto e quando dormia a céu descoberto em tendas no meio desta natureza.

Fazes distâncias impensáveis como por exemplo a tua última prova ao correres 400 km no deserto. O que pensas durante tanto tempo de corrida?

Penso no caminho que me levou até lá, na minha família, no meu pai que partiu e que me protege. Costumo rezar, ouvir música. Habitualmente faço estas provas totalmente sozinha, é a forma que gosto. Penso nos próximos desafios, nas próximas viagens, planeio a minha vida, são momentos de verdadeira introspeção, de conhecimento pessoal, de gestão de dificuldades através da turbulência dos momentos difíceis que passamos. Saímos autênticas “máquinas de guerra” mentais porque passamos a acreditar que conseguimos tudo.

Nunca sentiste a tua vida em perigo ou que estavas a chegar ao teu limite?

Apesar de correr muitas vezes em países menos convencionais e perigosos (ex: Chade/Libia/Libano…), nunca senti medo porque tento abstrair-me na missão que carrego, acredito que vai tudo sempre correr bem. Em relação ao meu limite sim, na prova da China (400km) houve de facto muitos momentos de desespero em que pensei que tinha chegado ao meu limite. Rezei e perguntei a Deus, chegou o limite? Nunca em momento algum pensei em desistir mesmo nos momentos de exaustão imensa, queria fazer o caminho até ao fim. Fui gerindo as horas para terminar, os limites oficiais, ouvindo o corpo e escutando o coração que ansiava pela meta e 135h depois desta batalha alcancei a meta, com 433 km por me ter perdido diversas vezes pelo percurso.

Qual o teu próximo objetivo?

O meu objetivo é conquistar todos os desertos do mundo em que possa correr e em todos os continentes. Mesmo que não haja prova como alguns países já fui conhecer o deserto a correr ( ex: Kuwait, Bahrain…) . Já corri no deserto em 23 diferentes países.

O próximo desafio será em Junho na Austrália no Deserto de Simpson, serão apenas 160km. Dos desertos principais ficará depois apenas a faltar o maior deserto do mundo que é na Antártida, que se Deus quiser tentarei ainda em 2026, conquistando desertos nos 7 continentes do mundo! Neste desafio vou tentar superar um dos maiores medos que é o frio, gosto muito do calor e sinto conforto mesmo a correr com temperaturas que ascendem a mais de 50 graus, já o frio, é algo que me assusta, mas com bom equipamento vou enfrentar o desafio!

Carla André

O que mais gostas na corrida?

Tudo o que está para além dos km ’s que corremos, as viagens, as pessoas espetaculares, as culturas, as lições de vida que carregamos, a sensação de liberdade que nos dá, a simplicidade de poder correr.

Que conselho darias a quem está a começar a correr?

Dar o primeiro passo, começar do zero, gradualmente, ouvir o corpo. Estabelecer metas concretizáveis, criar rotina. Entregar-se aos desafios por si e não pelos outros, e nunca, mas nunca ceder a mensagens desmotivadoras de “não vais conseguir” ou de medo. Nós conseguimos o que nos propomos lutar!

Segue o teu sonho e focaliza nele. O foco leva-nos a concretizar as metas, não por magia ou algo isotérico, mas num mundo rodeado de excesso de informação, ladrões do tempo, mensagens negativas, é seguindo o que queremos que nos leva a tomar opções, focar no importante, abstrairmos do que não interessa, acabando por criar como que a nossa bússola pessoal. É este caminho que tenho tentado seguir, acreditando sempre que é possível.

Se tivesses de escolher uma frase ou lema que te acompanha na corrida, qual seria?

 “A força da Fé e do Querer que carregas no coração é maior do que a tua força física”

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Vitor Dias
Vitor Dias
Autor e administrador deste site. Corredor desde 2007, completou 76 maratonas em 18 países. Cronista em Jornal Público e autor da rubrica Correr Por Prazer em Porto Canal. Site Oficial: www.vitordias.pt

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